História do Trote no Mundo

A história do Trote é quase tão antiga quanto a própria universidade. A repressão ao trote também não é novidade. O primeiro ato proibindo a prática das chamadas “taxas de bichos” data de 1342 pela universidade de Paris. Mas os trotes medievais eram muito diferentes dos trotes praticados hoje:

1. França
Na França entre os anos de 1.200 (criação da universidade de Paris) e 1.700 (quando o trote chegou ao auge) predominavam duas culturas distintas:

a) Região Norte (Paris e arredores) – Os trotes, ou bajulationes, foram severamente reprimidos com o ato da Universidade de Paris, em 1.342. No entanto, o trote “extra-oficial”, era uma prática comum entre os veteranos.

b) Região Sul (Avignon e Aix) – os bejaunus, ou calouros eram submetidos ao purgatio. O purgatio era literalmente um período de purgação com duração de 1ano, divididas em 3 etapas: julgamento, pena e absolvição. Entre outras coisas, durante o purgatio, o bejaunus deveria pagar um banquete ao reitor, ao tesoureiro e ao promotor os quais poderiam convidar veteranos a participar do banquete. Além disto, o bejaunus era escravizado por um ano servindo os veteranos à mesa, cedendo os melhores lugares à lareira no inverno, fazendo comida e arrumando-lhes a cama. O bejaunus ainda poderia ganhar uma palmatoada sem nenhum motivo aparente toda vez que fosse à presença de um veterano. Após este período, o bejaunus finalmente poderia ser chamado de estudante.

2. Alemanha
O termo usado para trote era deposição. Um certo Manuale Scholarium, publicação sem autoria datada de 1481, narra a vida estudantil de três personagens fictícios na Universidade de Heidelberg: Joannes, o calouro, e Camillus e Bartoldus, os veteranos. No “manual” fica claro que o calouro era considerado uma fera que deveria ser domada e domesticada, e “limpa dos seus pecados”. Para tanto, após despir o “bicho” “o médico finge limar as presas do monstro, cortar-lhes as longas orelhas e o nariz hediondo, tudo acompanhado de muita pancada” . Na verdade, um veterano cortava seu cabelo, arrancava os pêlos do nariz e esfolava seu rosto. Além disto, o “monstro” era obrigado a tomar pílulas a base de purgante e estrume de hiena e de outros animais. Depois da limpeza, o calouro era obrigado a confessar uma série de crimes como roubo, estupro e adultério pelos quais ele deveria pagar um banquete aos mestres e veteranos.

A deposição, aparentemente tinha o caráter de purificar o calouro. Como era considerado de uma casta inferior, o calouro era obrigado a servir um veterano que lhe era designado como carrasco, ou perseguidor, por 1 ano, 6 semana, 6 dias, 6h e 6 minutos. Por fim, o calouro era submetido a um questionário e obrigado a prestar juramento de que faria com os outros calouros tudo o que lhe fora feito.

3. Inglaterra
Conhecido até hoje como freshman, o calouro inglês era obrigado a depositar no ato da matrícula certa quantidade de livros caução, variável conforme suas posses. A iniciação do freshman consistia em improvisar um discurso nonsense proferido nu em cima de uma mesa para uma platéia de veteranos. Quanto mais sem sentido o discurso e mais eloqüente o calouro melhor.

4. Estados Unidos
Devido à cultura extremamente moralista, os trotes americanos foram sempre muito discretos.

a) Nas confrarias - Os trotes mais pesados, ou pledging, se restringiam às fraternities, ou confrarias. Apesar da participação em uma confraria não ser obrigatória, significava integração e status, motivo pelo qual, assim que se matriculavam, os alunos voluntariamente se candidatavam à uma ou outra. O pledging ia mais ou menos de fevereiro a abril, e durante este período o calouro começava a sofrer trotes progressivamente mais violentos e humilhantes que terminavam na Hell Week. As cerimônias das confrarias se assemelhavam muito com as práticas de grupos secretos, e como todas as cerimônias eram como rituais, o calouro não podia se recusar a sofrê-los, muito menos denúnciá-los. Entre as obrigações do calouro estavam usar broche de bicho, trazer sempre fósforos e cigarros para oferecer ao veterano e fazer faxina conforme for designado. As punições mais comuns eram comer no chão e como a mão, fazer exercícios físicos até a exaustão ao gosto do veterano. Já durante a Hell Week os calouros eram submetidos a provas ainda mais humilhantes como empurrar amendoins com o nariz por toda a extensão do piso da moradia estudantil nus, enquanto levava palmadas dos veteranos. A Hell Week ainda tinha provas ainda piores principalmente, pautadas de conotação sexual.

b) Nas universidades em geral – O hazing reflete a cultura “maquiada” americana de pretenso puritanismo, e por isto, não houve nenhuma prática tão estruturada que pudesse virar reconhecida tradição nas universidades. Mesmo assim, houveram casos de acidentes e até mesmo mortes em trotes nos Estados Unidos. No entanto, na década de 20 já se esboçava um movimento anti-trote e na década de 60 começaram a surgir os primeiros movimentos para a humanização do trote, substituindo os trotes físicos por trotes culturais ou beneficentes.

5. Espanha
As novatadas, só se tornaram assunto de grande importância no século XVI, principalmente nas universidades de Salamanca e Alcalá. As 4 Ordenes de Consejo proibindo a prática do trote entre os anos de 1781 1783 foram inúteis. Mais uma vez, enquanto sumiam os trotes institucionalizados, aumentavam os trotes extra-oficiais. O documento que nos dá melhor idéia de como eram as novatada é um caderno conhecido como Constituiciones, provavelmente escrito por um veterano. Nele, encontra-se a descrição do bautismo, no qual o cabrón, um dos mais antigos veteranos, com a ajuda de outros colegas, sujeitava os novatos à tortura física. Com o passar do tempo, o bautismo perdeu o caráter clerical de punição, para assumir uma relação semelhante à de servo-senhor, cachorro-amo.

6. Portugal
Concentrado basicamente na Universidade de Coimbra, as investidas de Novatos consistiam em constante humilhação, agressão física, extorsão e o canelão, isto é, o chute com o qual os novatos eram recebidos nas salas de aula. Em Coimbra, chegaram a se formar grupos de estudantes conhecidos pelas maldades que praticavam por toda a cidade desde que os novatos, ou louraças, chegavam à cidade. Os mais famosos desses grupos foram o Rancho da Carqueja e o Palito Métrico cuja fama ainda “assombra” a cidade. Entre os lemas destes grupos estava a máxima: “Ser calouro é ser asno de ouro, e ser asno de ouro é ser quase lente a menos que gente,”

7. Uruguai
O trote é peculiar, pois não é o calouro que é troteado, e sim o veterano ao se formar. O calouro, é recebido na universidade com uma semana de cultura com palestras e atividades para ambientarão à nova realidade. O veterano, por outro lado, ao se formar, recebe seu batismo como futuro profissional. O trote acontece logo após o último exame e os amigos do recém-formado é que se responsabilizam pelo trote. O novo profissional tem que desfilar pela cidade em um carro aberto (ou na capota de um carro) com algumas mechas de cabelo cortadas, roupas em frangalhos e cartases do tipo “Nuevo médico”, “Nuevo ingeniero”.

8. Brasil
A formação da universidade no Brasil foi bastante tardia em relação a outros países da América latina. Enquanto a universidade de Lima data de 1551 e a do México de 1553, as primeiras universidades brasileiras são constituídas apenas me 1808, com a chegada da Família Real ao Brasil. Como até 1808, não haviam universidades no país, os filhos de famílias ricas eram enviados para a França, e principalmente para Portugal para estudar. Com a formação das universidades do Rio de Janeiro e da Bahia, abre-se uma nova oportunidade para que os filhos de famílias ricas que estudavam fora, estudassem no Brasil. O resultado, foi praticamente um transplante do trote conimbrense para o Brasil.

   
 
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